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Da escravidão ao racismo estrutural: seminário discute construção da subjetividade negra

Durante dois dias, integrantes do sistema de justiça, de instituições públicas e da sociedade civil organizada participaram de discussões sobre racismo estrutural
publicado: 31/07/2026 15h49 última modificação: 31/07/2026 16h17
Exibir carrossel de imagens Foto: Marcelo Del Negri - Ascom MPF/RJ

Foto: Marcelo Del Negri - Ascom MPF/RJ

“Onde está a explicação para que tenhamos racismo, para que tenhamos desigualdade social e racial e não tenhamos racistas? Talvez uma pista para se discutir isso seja o fato de que, para além de questões atitudinais e do preconceito, existam estruturas sociais que sustentem e reproduzam essa desigualdade”, explicou o procurador da República Eduardo Benones, orientador pedagógico do II Seminário “Conversando sobre racismo – Da escravidão ao racismo estrutural: trauma histórico, construção da subjetividade negra e justiça intergeracional”, que começou quinta-feira (30) e segue até sexta-feira (31). Confira as fotos do evento.

Promovido pela Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU) e pela Procuradoria Regional da República da 2ª Região (PRR2), o evento foi realizado no Rio de Janeiro-RJ, com transmissão pelo YouTube. Durante dois dias, integrantes do sistema de justiça, de instituições públicas e da sociedade civil organizada participaram de discussões sobre os impactos históricos e contemporâneos do racismo, a formação das desigualdades raciais, os mecanismos que perpetuam a discriminação e o papel das instituições públicas no enfrentamento do racismo.

“Não podemos esquecer que a nossa sociedade viveu 300 anos de uma escravidão violenta e depois uma pretensa abolição da escravatura. Na realidade, tivemos uma mudança de um sistema exploratório de pessoas que viviam sob um regime escravocrata severo, grave e violento. Uma abolição que só existiu no papel, e não houve, minimamente, situações de reparação desse povo explorado”, destacou a diretora-geral da ESMPU, Raquel Branquinho, na abertura do seminário.

Branquinho acrescentou que a Escola tem promovido atividades acadêmicas com foco na pluralidade, na diversidade e, principalmente, nos problemas estruturais do país, que envolvem o racismo, o machismo, o patriarcado e outras questões que se interrelacionam na temática. “Estamos tentando trazer esse olhar para dentro do sistema de justiça, que é elitista, branco, e tem dificuldade de reconhecer, reparar e trabalhar sob as óticas e as lentes que são necessárias." O procurador-chefe da PRR2, Leonardo Cardoso de Freitas, lembrou que o número de assassinatos no país caiu ao menor nível em 14 anos. Contudo, 80% dessas mortes são de negros. “O genocídio do jovem negro é algo chocante pelo fato e pelo silêncio.”

Cofundadora do coletivo Mulheres Cuidando Movimentando Territórios e coordenadora do Coletivo Mães sem Fronteiras do Complexo do Chapadão, Nádia Santos, mãe de vítima letal do Estado, pontuou as origens do racismo estrutural no Brasil. “Quando a escravidão acabou, não vieram junto escola, terra, moradia, saúde. Pelo contrário, veio abandono. É aí que nasce a desigualdade racial que vemos no nosso cotidiano. O impacto do racismo não ficou no passado, é contemporâneo. Está na dificuldade de acesso à educação de qualidade, no desemprego, no salário baixo, na violência, na falta de representatividade nos lugares de poder. Está no trauma que passa de geração para geração.”

Violência religiosa – Presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro e Promoção da Igualdade Racial (Cedinepir) e diretor de Cultura da Unegro, Luiz Eduardo Alves de Oliveira (Negrogun) alertou para a violência religiosa contra as religiões de matrizes africanas. “Em toda a minha trajetória, eu não tive um dia que não convivesse com o racismo ou com a violência religiosa. Nós não estamos vivendo um período de intolerância religiosa, mas um período absurdo de violência religiosa. Invadem os nossos templos, destroem nossos signos sagrados, agridem as nossas pessoas.”

Coordenadora Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), Rosa Negra Ferreira lembrou que conversar sobre o racismo é um ato de resistência. “Nós somos uma história que resistiu na cultura, na educação, na política, na ciência, na arte. Nós resistimos com a nossa ancestralidade, que é o que nos traz até aqui e a todos os espaços por onde nós vamos.”

Presidente da Associação Nacional da Advocacia Negra, Estevão Silva acrescentou que fala em nome das pessoas que são invisibilizadas, “que demorarão muito ou talvez jamais cheguem ao posto onde eu tenho a felicidade de estar. Então, é sempre um privilégio, uma responsabilidade muito grande, falar em nome dessa população tão sofrida, tão marginalizada”.

Temáticas – O seminário promoveu debates sobre colonialidade, escravidão e trauma histórico; dimensões históricas, jurídicas e psicossociais da racialização; racismo estrutural e construção da subjetividade negra no mundo atlântico; dimensões morais, materiais e simbólicas das desigualdades raciais; e formas de reparação por meio de caminhos jurídicos, institucionais e simbólicos.

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